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queremlaver

contactoclaudiaoliveira@gmail.com

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PERDOEI A VIDA

 

Vai ser um bocadinho estranho partilhar isto. Não vos posso contar a história toda, mas vai ser suficiente para transmitir aquilo que pretendo. Acredito que existem peças fundamentais para o crescimento pessoal. Cada um com as suas. 

 

O meu pai morreu quando eu tinha oito anos. Isso afectou totalmente a minha infância e o meu crescimento emocional. Na altura, os meus irmãos tinham seis anos e seis meses. A minha mãe ficou sozinha com três crianças e as coisas não foram fáceis. Quando digo que afectou o meu crescimento emocional quero dizer que tudo o que eu fiz depois dessa data foi marcado por esse acontecimento. Eu vivia com a sensação de perda todos os dias. Um vazio gigante, uma aura de solidão imensa e uma estranha forma de me relacionar com todos.

 

Adiante, era uma miúda feliz com um peso no coração. Entendem? Sempre que algo de negativo acontecia na minha vida eu ligava ao facto do meu pai ter morrido. Tudo era culpa da morte dele de forma prematura. Imaginem, um rompimento de namoro na adolescência era um buraco negro para mim. Eu não sofria por causa do fim do namoro, eu ia buscar o dia da morte dele para sofrer o fim do namoro. Confuso, não é? Acabei por desenvolver um medo desenfreado por perder as pessoas. Isso dava cabo da minha segurança. E eu precisava muito de segurança. Ainda hoje busco segurança em todos os meus passos. Mas já estou a entrar por caminhos estreitos. Vamos ao que eu quero dizer. 

 

Ao longo de muitos anos sofri horrores com a ausência do meu pai. Repetia lembranças vezes sem conta até cansar. Sempre os mesmos episódios. Tenho memorizados oito episódios com ele. Oito. O peso desapareceu há cerca de sete anos. Nessa altura deixei aos poucos de repetir as lembranças com medo de me esquecer do seu rosto. Deixei de escrever sobre ele exaustivamente. Deixei de chorar ao som de uma música ou duas que associo sempre a nós. E fiquei leve. A dor passou a saudade bonita. Sem peso. Há um grande motivo para esta mudança, daria outro texto. 

 

Ao longo destes anos nunca quis saber quando é que ele tinha falecido nem a data do seu aniversário. Para não ter mais datas tristes para além do dia do pai. Sendo que o dia do pai agora é o dia do super pai desta casa. Se calhar a minha mãe já me tinha dito mas eu nunca memorizei. Defesas. Não sei. 

 

Hoje comentei com o meu melhor amigo que não sabia essas duas datas e tinha muita vontade de saber. Aliás tenho vontade de saber mais sobre ele. Estávamos a falar da série This is Us e calhou em conversa. Ele disse-me para perguntar à minha tia, irmã dele. Por concidência ou não a minha prima veio falar comigo no chat. Raramente falamos. E assim que a ajudei no que precisava perguntei as datas. Foi muito importante para mim este passo. Ter datas. Ter coragem de perguntar. Não é propriamente as datas, é a minha atitude. E ainda fiz várias perguntas sobre ele. 

 

Parece que finalmente tirei os lençóis dos fantasmas. Nunca pensei conseguir falar no meu pai com alguém da minha família. Nunca pensei que a saudade durasse uma vida. Nunca pensei pedir uma foto dele comigo ao colo. Não tenho uma única foto dele. Nunca pensei perdoar a vida pelo o que me aconteceu quando tinha oito anos. 

 

Grata. Muito grata. 

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